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Muitos mergulhadores que assistiram ao filme "O Segredo do Abismo"
sairam do cinema perguntando quando toda aquela tecnologia poderá ser usada no mergulho
amador. Você já se imaginou dormindo em um hotel submarino parecido com o habitat do
filme, podendo mergulhar quando quiser utilizando os mais sofisticados equipamentos para
cumprir diversas missões debaixo d'água ? Se você acha que isto é ficção
científica, prepare-se: é hora de participar do programa Man In The Sea (MITS) de Scott
Carpenter, em Key Largo, no sul da Flórida.
O
programa foi criado em 1985 por dois pioneiros da exploração submarina, Scott Carpenter
e Ian Koblick. Mais conhecido por ter sido um dos primeiros astronautas americanos
(lembra-se do filme Os Eleitos ?), Scott Carpenter foi também um dos primeiros homens a
viver durante semanas debaixo d'água durante o projeto Sealab da marinha americana, ainda
na década de 60. Juntamente com Ian Koblick, um ex-aquanauta dos projetos Tektite I,
Tektite II e La Chalupa e uma das maiores autoridades em exploração e conservação dos
oceanos, Carpenter criou algo único no ramo, assim como diversos outros programas da
Marine Resources and Development Foundation (MRDF), uma organização para o
desenvolvimento dos recursos marinhos criada e presidida por Koblick.
O MITS dura de 4 a 9 dias (dependendo das atividades incluídas) e
tem um objetivo ambicioso: mostrar aos mergulhadores a tecnologia disponível para
exploração do fundo do mar, em grande parte criada durante os anos 60 e 70 mas esquecida
em função da grande publicidade em torno do programa espacial. E não pense que
participar do MITS é como uma visita a um museu. Ao contrário de um passeio pelo Living
Seas do Epcot Center, a experiência do MITS é real. As atividades começam todos os dias
às 7 horas da manhã e não se encerram antes das 10 da noite, incluindo palestras, aulas
em laboratórios de biologia, mergulhos no Florida Keys National Marine Sanctuary e o mais
interessante: os projetos na Emerald Lagoon, uma lagoa de água salgada de 9 metros de
profundidade e pouco mais de 4.000 m2.
Como engenheiro naval, mergulhador e candidato a pesquisador de história do mergulho quase não acreditei no que vi à beira da lagoa quando cheguei às instalações da MRDF. Umbilicais com máscaras full-face e equipamentos de comunição de última geração, rebreathers, DPVs (scooters), o sino de mergulho utilizado no Sealab III, um complexo de saturação para mergulho profissional e o Sea Urchin, um submersível para uma pessoa capaz de descer a 100 m de profundidade. Espantado, perguntei ao Dr. Lance Rennka, diretor do MITS, como aqueles equipamentos foram parar ali. "Foram doações de empresas e do governo americano. Com exceção do sino do Sealab, tudo funciona e é utilizado durante o programa pelos alunos". O MITS é provavelmente o único lugar do mundo em que você pode aprender a pilotar um submersível e simular uma missão de saturação em menos de uma semana
E o melhor ainda estava por vir, escondido no fundo da lagoa. Coloquei meu
equipamento e, logo que desci, tive uma surpresa: água limpa ! Com o fundo coberto de
carpete e cascalho, um enorme sistema de filtros e uma equipe de mergulhadores aspirando a
sujeira diariamente, a lagoa é como um grande aquário. Próximo ao acesso à água
encontrei o primeiro projeto: um sítio arqueológico onde os participantes procuram por
objetos antigos utilizando um air-lift. Como tudo no MITS procura simular condições
reais de trabalho, os alunos utilizam uma grade de referência e câmaras de vídeo para
documentar as pesquisas. Mais adiante está um legítimo canhão de bronze com centenas de
anos que é usado em um projeto de recuperação. Ao lado, um sino de mergulho aberto
serve de "ponto de encontro" para os mergulhadores, que dentro dele podem tirar
suas máscaras e conversar a vontade.
Tive que nadar por alguns minutos antes que pudesse distinguir ao longe as duas maiores
atrações do MITS: os habitats submarinos MarineLab e Jules Undersea Lodge. O primeiro é
um laboratório submarino completamente equipado com acomodações para três aquanautas,
utilizado durante o programa para estudos sobre plancton, qualidade do ar e projetos de
oceanografia e biologia marinha.
O Jules sozinho é suficiente para justificar uma visita ao parque.
Construído em 1972 e originalmente batizado La Chalupa, este habitat foi utilizado
durante três anos em missões na costa de Porto Rico. Após sua desativação ele foi
adquirido por Ian Koblick, reformado e transformado no primeiro (e único) hotel submarino
do mundo.
Pesando mais de 150 toneladas, o habitat é formado por dois cilindros de 6 m de
comprimento e 2.4 m de diâmetro, interligados por uma "área molhada" de 3 x 6
m. O acesso é possível somente por debaixo d'água. Os mergulhadores entram por uma
piscina na região central, que serve também de depósito de equipamentos e abriga o
toillete. Após um confortável banho quente e de roupa trocada (cortesia da equipe do
MITS que levou meus pertences pessoais até o Jules em malas estanques) fui conhecer o
restante do habitat. Eu esperava instalações espartanas como em uma nave espacial, mas
tive mais uma surpresa: os três quartos não ficam nada a dever a um bom hotel, contando
com ar-condicionado, TV, vídeo-cassete, som ambiente e forno de micro-ondas. E o Jules
oferece algo que nenhum hotel do mundo pode oferecer: um jantar (de primeira classe, é
claro) observando um desfile de peixes e mergulhadores através de janelas de mais de um
metro de diâmetro. Nas versões mais longas do MITS os alunos chegam a passar duas noites
no Jules, mas você também pode conhece-lo sem participar do programa, basta ligar e
reservar - com muita antecedência - seu quarto, como em qualquer hotel.
Se
você já cansou de ver peixinhos coloridos no Caribe e procura por uma aventura submarina
realmente diferente, pense em inscrever-se em um dos programas do MITS nas suas próximas
férias. De quebra você ainda pode ser certificado com uma especialidade bastante
incomum: aquanauta !
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